'

Pastoreio, 2009

Dirigido por Alexandre Rafael Garcia

2009 | ficção | 17 minutos | HD 16:9 | Curitiba/PR, Brasil

A rotina do trabalho de Laudelino, pastor de ovelhas no Parque Barigüi em Curitiba há quase 20 anos, em meio à região urbana e inúmeras pessoas que praticam esportes ou passam suas horas de lazer.

Pastoreio é curta-metragem dirigido por Alexandre Rafael Garcia e realizado para a disciplina Direção Audiovisual III, sob orientação de Maria Augusta Ramos, do curso de Cinema e Vídeo da Faculdade de Artes do Paraná – CINETVPR, e lançado em maio de 2009.

Apresentando: Laudelino Matoso
Direção e Produção executiva: Alexandre Rafael Garcia
Direção de fotografia: Andressa Cor
Roteiro, Montagem, Edição de som e Finalização: Alexandre Rafael Garcia, João Krefer
Direção de produção: Adelmar Mello
Som direto: Alvaro Zeini Cruz, Rodrigo Janiszewski, Sandra Zawadzki

 

Crítica de Eduardo Valente em ocasião do 14o. Festival Brasileiro de Cinema Universitário, em julho de 2009:

in loco – 14o fbcu
Programa 3: O real, esse problema
por Eduardo Valente

Dentro da opção cada vez mais marcada da curadoria do FBCU por programar sessões quase temáticas, este Programa 3 da competição nacional, não sem problemas sérios de fruição ao longo do mesmo (em especial nas seqüências que uniam os três primeiros filmes, e depois nos três seguintes), acabou sendo aquele que, até agora, mais permitiu que o acúmulo de determinadas linhas de raciocínio permitissem chegar a alguns pontos de interesse maior. Nem tanto por ter sido um programa que girou em torno de uma questão que, como bem notou o realizador Pedro Jorge no debate após a sessão, “está cada vez mais em pauta” (a da perda progressiva das fronteiras entre o real e o encenado – algo que, de resto, acompanha o cinema desde seu nascimento), mas principalmente porque a maneira como os seus filmes se articularam em torno desse assunto permitiram algumas observações pontuais bem mais agudas do que a generalidade retórica que o tema propõe a princípio.

Curiosamente, os dois realizadores daquilo que poderíamos considerar mais diretamente como os dois documentários exibidos na sessão (Pastoreio, de Alexandre R. Garcia, da FAP-PR; e A Vermelha Luz do Bandido, do próprio Pedro Jorge, da Anhembi-Morumbi), partiram de formas bem distintas de uma recusa do formato mais comumente associado ao gênero – as chamadas “cabeças falantes”. Uma recusa aliás que, enquanto discurso estético-político, tem um tanto ingenuidade, como se este formato fosse em si o lugar do jornalismo ou da caretice, o que uma quantidade enorme de obras já provou não ser o caso (mais obviamente o trabalho de Coutinho pré-Moscou, mas também uma série de outros filmes). Afinal, caretice ou a ausência de elaboração cinematográfica não são apenas questões de forma, e especialmente não são questões resolvidas em equações simples (tal plano é publicitário, tal plano é jornalístico, etc e tal). Mas, se excluído o teor de “recusa como ponto de partida estético” (algo que é mais claramente o caso em Pastoreio), claro que esta recusa como desejo para melhor solucionar este determinado filme que querem fazer não tem nada de errado, muito pelo contrário. Só é interessante ver como, ao fugir de um formato dado, os realizadores vão se aninhar em outros formatos também bastante utilizados.

No caso do filme paranaense, esta filiação está bem clara na tela, mas sem precisar se tornar um tema do trabalho. O diretor mencionou no debate nomes como Hou Hsiao-hsien e Cao Guimarães (que, enquanto registros de filmagem, já trabalham em lugares bem distintos), mas a referência que mais chama a atenção no filme é mesmo a do chinês Jia Zhang-ke – e nem tanto o seu trabalho mais conhecido com a ficção, mas aqueles em que ele vai diretamente ao documentário, em especial In Public e Dong. Porque se de fato a idéia de contemplação é obrigatoriamente parte do trabalho de Garcia, parece mais interessante observar a inteligentíssima articulação construída pelo filme no trabalho com o fora de quadro, na relação entre som e imagem, mas principalmente na relação das figuras (humanas ou animais, uma vez que o filme acompanha o peculiar ofício de um pastor de ovelhas em pleno perímetro urbano curitibano) com a cidade – aqui presente via arquitetura, carros e também os parques urbanos.

Em todas estas articulações, Garcia consegue fazer um filme absolutamente preciso (no que certamente deve ter ajudado o olhar da orientadora Maria Augusta Ramos), onde os tempos dos planos nunca parecem comodamente excessivos para causar “efeito artístico”, mas sim acompanhando a duração necessária para que as ações penetrem em quadro, evoluam, e continuem para além dele. Quase no final do filme, um detalhe pequeno no desenho de som (o ressaltar de uma fala quase fora de quadro de um outro personagem que diz que o pastor estaria “virando estrela da Globo”) fecha muito bem o filme com uma pitada de questionamento sobre a performance do personagem para a câmera, tirando qualquer resquício de “cinema direto puro” que se pudesse querer ver no filme (embora não me pareça haver nem um pouco disso em questão, desde o princípio, com o já clássico plano que revela pela primeira vez a presença das ovelhas – um primor de manipulação com ares de “apagamento do olhar” que lembra o Five, de Kiarostami).

[continua...]

__________________________________________________________________________

 

Justificativa para o prêmio de “melhor documentário” no 3° MIAU (Mostra Independente do Audiovisual Universitário), em maio de 2010:

Pela capacidade de agenciamento de personagens e situações reais, por meio de uma cuidadosa composição dos planos; pelo tratamento original da temática urbana, escapando aos discursos convencionais sobre a cidade por meio de uma estética contemplativa característica do documentário de observação, concedemos o prêmio de melhor documentário do 3º MIAU para “Pastoreio” de Alexandre Garcia.
__________________________________________________________________________

 

Texto de premiação como “FILME LIVRE” na 10° MOSTRA DO FILME LIVRE, 2011.

 

Algumas questões em filmes observacionais são sempre presentes: até que ponto quem esta sendo filmado muda o seu comportamento quando sabe que tem uma câmera a gravá-lo? Este ´protagonista` costuma agir de outra forma, tendo outra reações no dia-a-dia e ali apenas as repete ou cria algo especialmente para esta nova situação que será então perpetuada como sendo a mais habitual de todas? A partir do momento que surge o elemento da câmera a gravar. todo o universo ao redor ganha a dimensão do esquimó “Nanuk” (1922) ou do índio Carapirú, de Serras da Desordem, quando são pela primeira vez filmados, registrados para o futuro. As imagens simples e diretas de “Pastoreio” mostram um dia na vida de um pastor de ovelhas em pleno centro de Curitiba. Seu papel de vigia se confunde com o da própria câmera porém não tão estática quanto esta, que com planos abertos não precisa se mexer para captar, sem detalhar, o que esta acontecendo. Enquanto a câmera vigia o vigia, este vigia as ovelhas atravessando ruas e/ou pastando pelo parque, sendo alvo também de fotos de turistas que, como o espectador, talvez nunca tenham visto ou tocado numa ovelha de verdade, que ali ganha status de celebridade, coisa tão fofa e esdrúxula como um belo filme a mostrar um cotidiano fora do comum sem que nele esteja presente a violência, o sexo e/ou as drogas para chamar mais atenção. (Guiwhi Santos)

 

 Mostras e Festivais: