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Publicado em: 1/02/2013

PELO QUE NÓS LUTAMOS

1. Isso não é um manifesto. É um pedido. Vamos falar sobre filmes?

2. Iniciamos um período de transição política na prefeitura de Curitiba, ao mesmo tempo em que se tem colocado em crise as políticas de incentivo ao cinema no Estado. É certo que há inúmeros problemas neste campo e, de maneira alguma, diminuímos a importância da luta por mais editais, orçamentos mais condizentes com o cenário atual, transparência na escolha dos jurados – que, sem dúvidas, deveriam ser remunerados, sempre, pelo trabalho – e outras questões que, urgentemente, precisam ser repensadas. No entanto, o nosso campo de batalha é o cinema. E o cinema, como escreveu Kent Jones, são os filmes (favoritos). Cada um luta com as armas que têm. Nossa única maneira de contribuir para a melhoria da paisagem cultural paranaense é propor algo que poucos parecem se importar: os filmes, este objeto que, para alguns pobres de espírito, é visto como um mal necessário. Quantos deles compõem um projeto de cinema, pensados pelos realizadores?

3. Nós, como espectadores da cinematografia do Paraná, queremos o novo, o peculiar, não a repetição, com dez anos ou mais de atraso, do que foi tendência mundo afora. Ou, igualmente lamentável, a manutenção da estética mofada e caduca de um tipo de cinema que parece feito com a ajuda de lanterninhas – aqueles funcionários que guiavam o atrasado durante as sessões de filmes, nos tempos em que não era preciso tomar a escada rolante para frequentá-las. Não estamos, de modo algum, defendendo o regionalismo xenófobo. Falar em regionalismo, na configuração atual do mundo, é estar em alarmante descompasso. Não queremos que as obras feitas aqui tenham a cara do Paraná. Queremos, simplesmente, que tenham uma cara.

4. Para aqueles que proclamam com orgulho que tudo é política, e que é impossível pensar estética sem neurônios politizados, deixamos aqui nossos pêsames (e um conselho: procure o raio verde). Este pequeno texto não é direcionado a vocês.

5. Ansiamos por melhores filmes. Repetimos: FILMES. Cinema. Não vídeos, novelas ou produtos audiovisuais. Que, sim, um dos nossos punhos, fechados, agite-se no ar, em comemoração, quando um longa-metragem paranaense chegar às salas comerciais, mas, que o outro punho esteja também fechado e pronto para combater a mediocridade se for preciso, e não aberto e ávido para distribuir tapinhas nas costas.

6. Não sugerimos, subliminarmente, que se produzam menos filmes e sim que se discuta mais sobre eles, antes e depois de fazê-los. Os estudantes de cinema são os mais indicados para a tarefa que, evidentemente, pode ser árdua, mas, com sorte, proveitosa. Infelizmente, por motivos que desconhecemos, a cada nova cadeira ocupada na faculdade, uma cadeira fica vazia nas sessões em que são exibidas produções paranaenses (há exceções, evidentemente, como no recente festival Olhar de Cinema. Mesmo assim, é preciso chamar atenção para uma prática nefasta e bastante comum no Estado: valorizar o oba oba à obra). Além disso, nos parece que os estudantes têm escrito pouco sobre cinema. Onde estão os blogues com textos polêmicos sobre o lançamento dos curtas da produtora X na Cinemateca?

7. Nossa reivindicação foge de uma proposta de debate elitista. Quantos de nós não descobriram o Renascimento assistindo Tartarugas Ninja antes de ir para a escola? Falemos de Van Damme e Van Gogh.

8. Almejamos entrar para história ou para o festival Y? Talvez seja o momento de reavaliar a importância que alguns realizadores dão aos festivais brasileiros. Estes são fundamentais, não duvidamos — naqueles em que acreditamos, submetemos nossos próprios filmes sem hesitar. O grande problema é que estes eventos têm de ser vistos como oportunidades de exibição e debate, não como provedores de selos de qualidade. Curta-metragem de Z não é necessariamente melhor do que curta-metragem de A apenas por ter sido selecionado para tal festival (curadorias, como se sabe, nem sempre se apóiam em critérios artísticos para montar uma programação; que fique claro: não há mal algum nisso!).

9. Se a oportuna iniciativa do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro em criar uma mostra dedicada ao cinema paranaense servir apenas para rechear currículos, assim como é feito com outros festivais, estaremos morrendo todos sob falsas promessas (para bom entendedor, meio Truffaut basta).

10. Para aqueles cujo cinema e o amor são os campos de batalha que acendem o coração, sejam bem vindos.

O Quadro
Alexandre Rafael Garcia, Anderson Simão, Christopher Faust, Evandro Scorsin e Wellington Sari

(Para acessar o texto no Facebook, clique aqui).

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