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Publicado em: 17/03/2014

Manifesto didático do contra e do não-contra

Isso, obviamente, é um manifesto. Mas, se iniciássemos o texto escrevendo que o que se segue NÃO é um manifesto, em uma estratégia discursiva empregada para afastar logo a atenção, por parte do leitor, da embalagem, que é sedutora, colorida, ergonômica, necessária, mas, evidentemente, descartável, para desencorajar que o leitor comente sobre o telescópio ao invés da estrela, para evitar que se comporte como a criança obcecada em pegar o pote com biscoitos em cima da estante, apenas porque a mãe chamou atenção para o fato de existirem biscoitos em cima da estante, dizendo “não pegue os biscoitos que estão no pote em cima da estante”, se começássemos assim, conseguiríamos receber reações opostas ao que desejamos.  “Isso não é um poema. É um pedido: casa comigo?”. “Eu não vou aceitar seu poema-não-poema, pois é ridículo, já que é um poema e você fala que não é um poema. E é um poema, sem dúvidas que é um poema. Você é esquizofrênico”.

Isso é um manifesto.

O Quadro não é contra:

1. Festivais de cinema.
2. Festivais de cinema em Curitiba.
3. Festivais de cinema, em Curitiba, cujos nomes incluam referências oftalmológicas.
4. Festivais de cinema, em Curitiba, cujos nomes incluam a palavra “cinema”.
5. Curadores universitários.
6. Filmes com velhas em apartamentos, “híbridos doc fic”, picaretagens assumidas, filmes com personagens com a cabeça encostadas em vidros de automóveis (desde que sejam carros de corrida, claro, como os da Fórmula 1 ou de categorias comandadas pela Nascar – National Association of Stock Car Racing), filmes com música drone, filmes-foto, foto-filmes, filmes dispositivos, cinema de refluxo,  filmes com pessoas que acordam tossindo e ficam sentadas na cama, de regata e muitas outras manifestações de cinema, que, de maneira consciente ou não, tem a atrasadíssima noção de que, tematicamente, só tem valor artístico a obra composta de solenidade, tristeza, vazio e outros males favoritos dos programas de tv da Igreja Universal, recorrentes em festivais por todo esse brasilsão de meu deus.
7. Não ser selecionado para algum festival.
8. Trocadilhos.
9. Generalizações.
10. Filmes mongóis.

O quadro é contra:

1. A homogeneização do pensamento, presente em muitas mostras competitivas dos festivais de cinema, no Brasil e no mundo. Homogeneização que não impede que existam mais de 300 linhas curatoriais, linhas estas que estão todas enroscadas, mas, que levam ao mesmíssimo cesto de novelos.  O fato de haverem diversas mostras paralelas, nos festivais, como as “mostras jovens”, de quem somos “frequentadores” e entusiastas, serve como alento. No entanto, queremos mais. Queremos que filmes com personalidade, que não sejam dóceis seguidores da tendência do momento, estejam também presentes nas mostras competitivas. Melhor se estes filmes forem os nossos. Não sendo este o caso, não há problemas.
2. Filmes falsamente pretensiosos (repetir os códigos pretensiosos de outros artistas não demonstra outra coisa além de falta de pretensão), com velhas em apartamentos, “híbridos doc fic”, picaretagens assumidas, filmes com personagens com a cabeça encostadas em vidros de automóveis, filmes com música drone, filmes-foto, foto-filmes, filmes-dispositivo, cinema de refluxo,  filmes com pessoas que acordam tossindo e ficam sentadas na cama, de regata e muitas outras manifestações de cinema, que, de maneira consciente ou não, tem a atrasadíssima noção de que só tem valor artístico a obra composta de solenidade, tristeza, vazio e outros males favoritos dos programas de tv da Igreja Universal, recorrentes em festivais por todo esse brasilsão de meu deus.
3. A falta de pretensão.
4. A falta de sagacidade ao lidar com a sátira, o deboche e a esculhambação.
5. O ímpeto irrefreável em prontamente desautorizar tudo aquilo que critica, seja por meio da sátira ou da provocação gratuita, o pensamento corrente.
6. Os que são obtusos demais para entender que “criticar é por em crise”.
7. O curadorismo por encomenda: fenômeno em que o curador de festival, direta ou indiretamente, influencia a maneira como os filmes devem ser.
8. Sinopses de uma linha, compostas por frases curtíssimas: “Estar. Ex-star. Brilhou o céu do ontem. Está inerte”.
9. Qualquer tipo de romantismo, beleza, inocência, harmonia, valores da juventude que não reproduzam o clichê rebeldia-depressão-experimentação-incerteza sexual, música pop, mulheres bonitas, piadas.
10. O leitor que chegou até aqui e não entendeu nada.

(Para não parecer que somos a favor de nada, revelaremos: na impossibilidade do sexo, somos a favor da masturbação).

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