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Publicado em: 19/05/2014

Diário de propaganda, 3º dia

Eis que chegamos ao terceiro dia de gravação. O outro Wellington Sari relata os acontecimentos do dia.

Dia 3 – Debutante

Anderson Simão está preocupado. Não é com o orçamento. Nem com as prestações de conta. Tampouco com o fato de a 3° diária estar mais de 106 horas atrasadas. Contratempos insossos, como a dificuldade de Marcelo Tanaka, assistente de fotografia e grande confidente de Daniel Florencio, para sair do almoxarifado da lanchonete/fliperama Nhac-Man, em que está trancado desde antes de ontem, são como sombrinhas esquecidos nos bancos de trás dos mil e um ônibus biarticulados em dias de chuva . Simão, curvado em “U”, braços suspensos , rosto contraído, como se estivesse pilotando sem óculos e capacete um jet-ski a 300 km/h, tem outra preocupação a lhe – marceneiro que trabalha de domingo a domingo – serrar o cérebro: que fim teve Alice?

Sentado em um caixote de frutas no meio do salão da Sociedade Morgenau, Simão olha para o chão. Quantos pés dançaram nesse chão? Quantas valsas foram aceitas? Quantas recusadas? Quantos olhares tímidos foram correspondidos por olhares ainda mais encabulados – duas mãozinhas furtivas se tocam por debaixo da mesa dos salgadinhos. Quantos beijos não começaram naquele salão depois da meia noite e terminaram com bom dias em travesseiros divididos por dois rostos sorridentes? Quantas delas eram Alice?

Alice, há exatamente 20 anos, usava um brinco em formato de abelhinha. Simão, postura ereta, de terno garboso e olhar confiante, percebe a garota de vestido verde e cabelos castanhos – mechinha da franja que insiste em escapar pela tiara – caminhando até a mesa dos brigadeiros e outras doçuras. Simão se levanta. Ao aproximar-se do beijinho e, lentamente, colocá-lo na boca, nota a dourada abelhinha bem próxima ao sorriso que Alice está lhe enviando, e percebe que aquilo que acha serem beijinhos são, na verdade, flores de decoração. Oscilando entre envergonhado e paralisado, Simão escolhe continuar a mastigar as flores – até que tinham gostinho bom!

Alice se afasta. Alice dança. Alice tira os sapatos. A tiara. Exausta, segura o cabelo com as mãos para afastá-los da nuca. Um ou outro fio fica grudado na pele. É dezembro, faz calor. O salão começa a se esvaziar, já passa das três da manhã. De bolsa pendurada no ombro, Alice atravessa a porta de vidro que leva à saída do salão de festas da Sociedade Morgenau. Fervilhando de coragem, pipoca colorida estourando no fundo da panela em formato de coração, Simão a segue. Ela está parada diante da saída para a rua, onde outros jovens esperam os pais chegarem e, talvez, perguntarem se o filho ou a filha se divertiram. “Oi. Tudo bem? Como que é seu nome?”. Bem simpática: “É Alice. Tava gostosa a flor? Eu gosto de flor, mas eu prefiro beijinho e brigadeiro e canjica”. Bem direto: “Sabia que eu fiquei olhando pra você um tempão? Mas não olhando tipo um maluco, assim, com olhão de louco, olhando tipo te achando bonita”. Alice olha para baixo e sorri. Uma mecha lhe escapa por cima de orelha. Ao ajeitá-la, um susto. Cadê a abelhinha? “Ai meu deus, acho que caiu lá dentro!”. Pegando na mão dele: “Me ajuda a procurar?”. “Cla…”.

O restante da frase foi suplantado pela buzina de carro da mãe de Simão. “Puts”. Mais buzina, mais buzina, mais buzina. “Eu tenho que ir embora, senão minha mãe vai me matar”. “Eu tenho que achar meu brinco, senão minha mãe vai me matar!”. Por um breve instante, finalmente Simão provou o beijinho de Alice, antes de atravessar a saída, olhar para trás, não ver o vestido verde, nem o cabelo castanho.

Que fim teve Alice? Será que ela achou a abelhinha? Anderson Simão está triste.

garoto propaganda - dia03 - 02

Foto: Nathália Tereza

 

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