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Publicado em: 17/05/2014

Diário de propaganda, 1° dia

Para as gravações de “Garoto Propaganda”, curta-metragem de Christopher Faust, a equipe do Quadro permitiu que um jornalista acompanhasse todo o processo de feitura do filme. Wellington Sari, não o mesmo Wellington Sari sócio da produtora, mas outro, completamente diferente, irá relatar o que viu, ao fim de cada diária. Eis o primeiro texto:

1º dia – Olho de vidro, memória de brometo de prata

Pássaros cantam. O som de um carro faz lembrar do efeito Doppler, aprendido na aula de física, há alguns anos. Bocejos coletivos por parte da equipe indicam que aqueles rostos passaram menos tempo do que gostariam encostados nos travesseiros – fronhas floridas para alguns, fronhas amareladinhas de baba, para outros. Na claquete, cuco barulhento sempre disposto a despertar o produtor que ameaça cabecear de sono, está escrito: “TAKE 1, PLANO 1”, assim mesmo, em caixa alta.

Será o primeiro “ação” dito pelo diretor Christopher Faust na gravação de ” Garoto Propaganda”. Os bocejos podem denotar preguiça, mas, no fundo de cada longo uuuuuuuaaaaaaaaaaaaaooooooooooooooooooo esconde-se a minhoquinha da tensão. O primeiro plano a ser gravado, em um novo filme, é como fazer sexo pela primeira vez: há enorme vontade de fazê-lo logo, ao mesmo tempo em que pulsa um terrível medo de que algo dê errado enquanto se está lá (ou, ainda, que acabe rápido demais). Alguns, velhas raposas de set, como Evandro Scorsin, desenvolveram, ao longo dos anos, o mesmo tipo de ritual supersticioso religiosamente executados por marinheiros antigos e mineradores do século XIX, antes de se entregarem ao labor: segundos antes do primeiro “ação”, Scorsin deita-se no chão e, sem emitir qualquer ruído, chora. Terminado o take, levanta-se, contente por ter espantado os maus espíritos.

Lágrimas já escorrem pela face de Scorsin, os pássaros já obedeceram ao pedido de silêncio proferido pelo técnico de som Guilherme Cordova, bocejos são abafados por mãos nervosas que tentam conter qualquer vogal que possa escapar pelo buraco, a haste da claquete ergue-se no ar, os neurônios de Faust já estão prestes a enviar comando para as cordas vocais, quando Daniel Florêncio, o homem de olho de vidro e memória de bromato de prata, o homem responsável por transformar em imagens concretas os movimentos do mundo sensível, arregala os olhos em espanto ao perceber que, tal um maestro sem batuta, padeiro sem forno, formiga sem antenas, está sem aquela que é sua grande ferramenta de trabalho. A câmera. A constatação forma-se na mente de todos: não há qualquer câmera no set de filmagens de Garoto Propaganda.

Scorsin, lentamente, muito lentamente, se levanta. Lágrimas ainda estão em suas faces.

garoto propaganda - dia01 - 05

Foto: Ana Paula Málaga

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