'
×
Publicado em: 3/02/2014

Conversa com Wellington Sari

Em dias de calor intenso, Wellington Sari veste um boné com a frase “CUCA FRESCA”, assim mesmo, em letras garrafais. O termômetro em meu celular marca, exatamente, 35 graus em Curitiba. Sari chega para a entrevista. “CUCA FRESCA”, “CUCA FRESCA”. Ele está com dois bonés, um em cima do outro. O ator e roteirista de “Manu Baunilha, Bia Chocolate”, certamente notou meu olhar atônito e, com um sorriso, explicou: “tá muito calor. Um boné só não refresca”.

Depois de pedir ao garçom um leite maltado – Sari é conhecido por consumir obsessivamente tal bebida -, nos sentamos em cima da geladeira (“gela a bunda”) na cozinha da produtora O Quadro.  Descontraído, o roteirista e ator falou sobre o novo trabalho, a atribulada vida pessoal, além de, claro, contar em detalhes o encontro que teve com George Lucas, na feira de automóveis usados, ano passado, em São Paulo. Cuca Fresca.

Pauline Margot: O que é mais difícil? Dirigir, ou ser dirigido?

Wellington Sari: Certa vez, depois do Grande Prêmio de Detroit, em 1982, perguntaram pro Nelson Piquet: e aí, Piquet, o que é melhor? Guiar a Brabham ou a Williams? Ele, naquela corrida, tinha, de uma maneira completamente maluca, guiado os dois carros ao mesmo tempo. Bom, sabe o que ele respondeu? (imitando a voz de Nelson Piquet) Sei lá, pô. Importante é ganhar. Esse é o Piquet.

PM: O que significa ganhar, pra você?

WS: Fazer um filme chamado “O Gigante Acordou e Não Vai Ter Copa, Porque Eu Fui Pra Rua”.

PM: Você adora utilizar vírgula nos seus títulos, parece que…

WS: (interrompendo) Adoro, adoro, acho excitante. A vírgula é a manifestação da dúvida, da pausa, do corpo curvilíneo feminino. É a poesia da pausa. É a parafernália pacifista.

PM: Desculpe, mas não consegui entender o que você quis dizer.

WS: O entendimento é a mais bonita forma de brasilidade.

sari

PM: Bem,” Manu Baunilha, Bia Chocolate”, é mais um filme jovem da produtora. Quando vocês começarão a fazer filmes de verdade?

WS: Muito em breve. Estamos com diversos projetos em andamento. Todos, pela primeira vez, maduros. Um deles, por exemplo, é sobre um homem que não tem tronco, apenas cabeça, pernas e braços. Certo dia, ele resolve ir atrás do seu filho, com quem não mantem contato há anos. Quando ambos finalmente se encontram, o filho tenta abraçar o pai e não consegue, pois este não tem tronco. A impossibilidade do abraço, do afeto, do beta afeto, é um dos temas que mais interessa atualmente. É a espinha dorsal da contemporaneidade.

PM: Beta afeto é um belo termo.

WS: (ignorando) Outro projeto que temos é sobre uma senhora de 102 anos que vive em um apartamento. Certo dia, implodem o prédio com ela dentro. O motivo: por ser surda, a senhora  não conseguiu ouvir os inúmeros telefonemas, mês após mês,  nem as mil batidas na porta, dia após dia, por parte dos funcionários da empresa de implosão, que, desesperadamente, tentavam avisá-la. Pior ainda, ela não conseguiu ouvir a sirene que alertou o bairro todo sobre a eminente explosão. A incomunicabilidade é um tema que me interessa muito.

PM: O quê?

WS: O quê, o quê?

PM: Não sei, o quê?

WS: Sei lá.

PM: É só uma brincadeira, Wellington. Estou praticando a incomunicabilidade.

WS: Sabe que eu adoro brincadeiras, né? No primeiro dia de gravação do “Manu Baunilha”, fiz um lancezinho com o Evandro [diretor do filme]: acoplei uma arma de fogo no visor da câmera. Deixei  revólver calibre 32 com o cano virado para o lado em que ele deveria colocar o olho para poder enxergar o plano. Quando fomos gravar a primeira tomada do dia, disparei o 32, com a ajuda de um controle remoto, bem na hora em que o Evandro foi olhar pelo visor. Sangrou muito e Evandro acabou perdendo a visão esquerda, mas, foi hilário. Um diretor não precisa de dois olhos, assim como não precisa de duas câmeras.

Não há comentários, seja o primeiro a comentar!

Responder

À
5

Please Wait...